Não falarei mais das estrelas – Chico Leão


Eu já falei tanto das estrelas, elas que ocupando o espaço sideral iluminam tudo ao seu redor e fascinam com seu brilho aos desavisados como alguns tolos poetas de versos toscos e rimas pobres, elas que são lindas e belas e de tão belas e lindas lembram um canto de sereia em forma de oceano cintilante e mágico a encantar e a seduzir aos loucos e apaixonados.

Não! Não mais falarei das estrelas, elas que de tão distantes parecem pequeninas aos nossos olhos como os grãozinhos de areia perdidos em um imenso deserto e brilhante como um mar de esmeraldas e rubis faiscando centelhas de luzes e cores encantando marujos, galeras e veleiros.

Não! Não mais falarei das estrelas. Juro! Porque eu perderia meu precioso tempo a falar destes astros medrosos que se escondem a luz do dia e só aparecem à no

Conto de Terror: Os olhos que comiam carne – Humberto de Campos

Na manhã seguinte à do aparecimento, nas livrarias, do oitavo e último volume da História do Conhecimento Humano, obra em que havia gasto catorze anos de uma existência consagrada, inteira, ao estudo e à meditação, o escritor Paulo Fernandes esperava, inutilmente, que o sol lhe penetrasse no quarto. Estendido, de costas, na sua cama de solteiro, os olhos voltados na direção da janela que deixara entreaberta na véspera para a visita da claridade matutina, ele sentia que a noite se ia prolongando demais. O aposento permanecia escuro. Lá fora, entretanto, havia rumores de vida. Bondes passavam tilintando. Havia barulho de carroças no calçamento áspero. Automóveis buzinavam como se fosse dia alto. E, no entanto, era noite, ainda. Atentou melhor, e notou movimento na casa. Distinguia perfeitamente o arrastar de uma vassoura, va

Pesos e medidas

Casada e feliz há mais de dez anos foi com surpresa que se viu apaixonada. Custou a crer. Mas rendeu-se aos fatos, sem medos. Por certo tempo curtiu muito. Depois foi acometida de pesadelos. Acordava suando frio e olhava o marido dormindo tranqüilo ao seu lado. O mais difícil era transar com os dois no mesmo dia. Depois foi acostumando. E se acahava  a tal... O difícil foi suportar as cobranças do amante para que ela abandonasse o marido e ficasse com ele. Em troca de que, ela indagou? Ele respondeu: do nosso amor. É pouco, disse ela... Pesou e mediu as palavras, tentando conter a ira, e acrescentou:  Deixa de ser cara de pau. Como tem coragem de exigir que eu deixe de morar num belo apartamento na Zona Sul, com serviçais; tenho cozinheira, copeira, mordomo e motorista; bons e luxuosos carros; e viagens duas vezes por ano

Separação

Meus olhos não se casam de olharAo longo da estrada ainda mirar.Antes da curva, quero adivinhar.Levas contigo meu direito de sonhar.Não queria mais amar...Para não mais me amargurar.Mais o destino tratou de arrumarUm jeitinho de nos aproximarAgora te leva sem nos prepararSem motivos pra argumentarFazendo-me acreditar...Que tudo passou, acabou...Sem nem mesmo deixarMotivo para se explicar.  Para ler outras poesias da autora no Site Lima Coelho, no Menu "categorias", e em Índice por Autor(a), clique em Lucivani Lourenço Matos.

As revelações no velório


Rubinaldo, homem ainda moço, bonitão, cheio de vida e de problemas amorosos, havia sofrido um repentino ataque do coração e caído indubitavelmente morto. Arroxeou no mesmo instante, numa cor que parecia outra pessoa. Agora estava sendo velado, pranteado por familiares, parentes e até desconhecidos. Fato curioso é que morreu solteiro, porém mantendo três amantes ao mesmo tempo, dando manutenção de casa, comida e tudo mais.Mesmo se odiando, querendo se comer uma a outra, as três amantes estavam ali chorando a dor da perda, o lamento da despedida do macho. Mas cada uma num canto para evitar confusões, e cada uma tendo ao lado uma boa amiga para prestar o devido e necessário consolo.Uma dessas amigas dizia: “Chore não Bibiana, que Rubinaldo não merece suas lágrimas. Veja ali no canto aquela sirigaita chorando també